Vedanta, Espiritualismo e o ego místico

Há muitos e muitos séculos a Índia tem sido considerada como o coração espiritual do mundo. Este olhar se deve à força da tradição que sustenta a cultura védica, cujo florescimento se confunde com a fundação de diversas escolas filosóficas, como o Nyāya, o Yoga e o Vedanta, entre outras. Entretanto, segundo seus adeptos, este processo só pôde se estabelecer graças à absorção do conceito de linhagem, sobre o qual se apóia a transmissão de conhecimento entre guru e disícipulo a fim de que o conteúdo dos ensinamentos recebidos se mantivesse inalterado. Sobre este assunto, algumas considerações se fazem necessárias.

Taj Mahal
Taj Mahal

Rio Ganges

Rio Ganges

Este texto tem por si só dois propósitos: o de dissolver a aura que se formou em torno do “mundo védico” como aquilo que nos dias atuais é chamado de “modismo”; e em segundo lugar, o de fissurar com a empáfia do Espiritualismo que, de maneira mais amena, arroga para aqueles que a ostentam erudição semelhante à dos círculos espíritas (kardecistas) com relação ao Orientalismo – assunto sobre o qual, pela vaidade com que é abordado, pouca profundidade é oferecida.

Helena Petrovna Blavatsky
Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica.
Alan Kardec, pai do Espiritismo e influenciador de outras correntes do Espiritualismo.
Alan Kardec, pai do Espiritismo e influenciador de outras correntes do Espiritualismo.

A quem possa interessar, os grandes ṛṣis – os sábios que recepcionaram e compilaram os Vedas – possuíam, sim, faculdades extra-psíquicas conforme o que se aborda e busca desenvolver nas chamadas ordens místicas e magísticas desde a sua aurora durante as últimos décadas do século XIX – assim como nas irmandades esotéricas e associações espiritualistas que sobrevivem ao nosso tempo – ainda que o estéril racionalismo daqueles que se inclinam ao Vedanta – de maneira geral – diga o contrário.

Swami Dayananda, um dos maiores propagadores do Vedanta durante o século XX.
Swami Dayānanda

Por esta razão, convém salientar que, de acordo com o dharma, um ṛṣi não necessariamente equivale à moderna acepção de um guru, considerando-se a diferença entre o viés questionador que caracteriza a natureza apresentada por este último e o caráter mítico do primeiro. Da mesma maneira, deve-se compreender a diferença entre um guru em sua acepção original – como aquele que dissipa a obscuridade causada pelo aviltamento espiritual – e um ācārya, cujo propósito é o de professar o conhecimento intelectual e instruir empiricamente. Assim, há de se buscar discernir sobre o que tem por função ilustrar ou abater o ego, destituindo a invariável e absoluta noção de linhagem e as garantias que ela supostamente prescreve, assim como qualquer aspecto de superioridade por parte dos seguidores que o Vedanta contrapõe com relação a espiritualistas e ocultistas, já que, não apenas a experiência metafísica é particular e questionável como, em essência, o conhecimento a respeito do Absoluto se encontra disponível para todos.

Ramakrishna Paramahansa e Ramana Maharshi
Ramakrishna Paramahansa e Ramana Maharshi

Em paralelo, cabe, contudo, expor: a pronúncia do mantra deve ser respeitada não só por razões psico-físicas, mas principalmente por causa delas; o conhecimento do Sânscrito – enquanto ferramenta favorável à dissolução de perspectivas irreconhecivelmente enraizadas do ego – deve ser absorvido a contento; as “boas maneiras” que os yamas e niyamas sugerem devem ser vivenciadas. O Conhecimento (com maiúscula) é vivo, mas convém ser contemplado e experimentado de forma exemplar – ao contrário deste ou daquele indivíduo que  baseia sua busca espiritual na utilização de um dhotī e na exaltação de sua própria imagem, atribuindo à vestimenta e ao acúmulo de informações maior aproximação com os aspectos espirituais da existência humana – e, desta forma, apenas respaldando o sistema de castas.

Swami Nithyananda, guru auto-intitulado envolvido em escândalos e fraudes.
Swami Nithyananda

Com tais colocações, o que se quer delimitar é o seguinte entendimento: em um país como a Índia, onde se adverte a criminalidade e a pobreza, os furtos e os estupros, há de se buscar com cautela e discernimento a espiritualidade nos confins do coração do próprio buscador. Do contrário, apenas a idolatria e a ignorância sobrevirão do “reino dos swamis”. E assim tem se fomentado o Vedanta.

Por questão de justiça e equilíbrio, convém concluirmos explicitando semelhantemente aos espiritualistas o desejo de que, por sua vez, possam eles se desfazer da mesma soberba que apontamos logo acima sobre os reais “herdeiros” do  Sanātana Dharma e procurem assumir a responsabilidade à qual foram direcionados pelo karma, deixando de lado a propagação de idéias tais quais aquelas que comparam ṛṣis, gurus e ācāryas a médiuns, já que a presença de siddhiḥs não traz por si só qualquer espaço para conclusões ou experimentos linguísticos no campo da sinonímia. Quando não comprovam apenas a má utilização de tais poderes adquiridos em outras vidas e a transitória oportunidade para a prática do desapego e prestação de serviço voluntário.

Espiritualismo

Namaste

Ass.: C

Obs.: Este texto foi canalizado no dia 07 de Junho de 2018 e posteriormente retocado para fins de estilística sob a supervisão daquele que o assina, mantendo-se indubitavelmente a fidelidade do conteúdo aqui explicitado.